Bem vindo às Terras de Salém. Onde a Magia nunca tem fim.
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quinta-feira, 10 de janeiro de 2013

Ouroboros


Ela abriu os olhos. Estava finalmente de volta ao lar, acolhida, protegida, resguardada por aquelas velhas paredes que ela mesma construíra ao longo dos anos. Assim que acordou, imediatamente recordou-se da tempestade do dia anterior e de todos os dias que antecederam aquele momento, desde  o começo de sua tormenta. Olhou em volta e vislumbrou com orgulho e também com um certo pesar aquelas paredes, ainda tão belas, mas já muito marcadas por vários furos, arranhões e pregos. Sentiu o cheiro de casa. Respirou profundamente, espreguiçando-se na cama macia e então, como um relâmpago que atravessa o céu, ele veio em seu pensamento. Sentiu na mesma hora aquela dor aguda no estômago, seguida de uma náusea e de um calafrio que pareceu durar a eternidade. Resolveu afastar aquela sensação. Depois de alguns minutos, conseguiu pensar sem medo algum, apenas com a serenidade que alcançara através de muitas lutas e de feridas mortais.  Mais uma vez, o velho vulcão tinha despertado, ameaçando tudo e todos com sua fúria, com sua impiedade. Ela bem conhecia aquela sensação de pânico crescente. Mas acostumara-se a lidar com o medo do inesperado.  A saber a hora de agir e a hora de recuar. Todavia, diferentemente dos outros, sempre  mais comedidos e mais ponderados, ela raramente recuava.

Um dia, numa despreocupada madrugada de terça, o velho vulcão, já plenamente desperto, resolveu então dar sinais de que sua devastação dessa vez seria implacável, intensa, arrasadora e irreversível. Ela olhou ainda uma vez  para aquela montanha imponente, sentindo-se pequena e desprotegida diante de sua magnitude e força, mas absolutamente consciente de que essa luta não seria como as outras. Algo mudara desde as últimas erupções. Algo novo e ainda mais forte do que antes estava borbulhando naquela lava. Algo incontrolável e impossível de ser parado estava ali, pulsando no coração daquele vulcão, pronto para devorar-lhe a carne. Ela sentiu um profundo medo em seu coração. Um medo real. O mesmo medo que sentira em outras ocasiões como esta, porém, com uma intensidade inexplicável. Ela soube então que agora seria de verdade. Agora seria pra valer.

Debaixo de olhares reprovadores e admirados de todo o povo daquele lugar, ela começou a subir a montanha. Os gritos de "Volte! Você está louca?!" e " Não faça isso a você mesma!" foram ficando cada vez mais baixos, mais fracos, até desaparecerem por completo. Sua libertação era também a libertação daquelas pessoas, que nunca poderiam entender questões como renascimento e morte, tão presos que estavam em suas vidas comuns. Felizes, mas comuns. Nada de novo. Apenas a falsa sensação de estabilidade que a rotina traz. Na sua frente agora só uma fumaça preta e fuligem começavam a se transformar num espesso paredão, e o calor aumentava a cada metro percorrido. Estava próxima de seu objetivo, pensou consigo mesma. Mais uma vez, iria experimentar aquele medo, aquele abandono, aquele vazio, aquela sensação única que só os grandes na alma conhecem, porque sabia que no fundo, esse é destino dos que têm a alma a transbordar. Ser, acima de tudo, sozinhos.  Teve plena consciência da beleza daquele momento. E também de toda a tristeza que ele trazia em si. Em seu peito agora, só um imenso buraco negro. Um imenso vazio, que em breve, seria da forma mais completa e perfeita possível, preenchido.

Olhou lá do alto a lava fervente do velho vulcão e pôde ouvi-la nitidamente chamar o seu nome. O momento havia chegado. Não mais o adiaria, não poderia fazer mais isso, sentira no começo de tudo que, dessa vez, apesar de todas as lutas, de todos os esforços, das batalhas que ganhara até então, havia perdido a guerra. Mas sabia também que perder era receber de volta a própria liberdade e por isso não mais sentiu medo. Não precisava mais lutar contra aquele sentimento.  Fechou os olhos e então mergulhou.

Mergulhou um mergulho profundo e sem medo naquele calor, e durante todo o tempo em que caía, lembrou-se de vários momentos de sua vida. Lembrou com saudade das algazarras que fazia junto dos seus na infância, das disputas adolescentes, dos momentos de sofrimento e também das horas felizes. Tinha vivido aquela vida plenamente. Não havia apenas passado por esta Terra, mas havia vivido. Havia sentido coisas que ninguém jamais sonhara em sentir, entendia esses sentimentos, os sabia reconhecer. Isso a tornava tão mais rica, tão mais bela, tão mais eterna! Era eterna! E a eternidade podia ser sentida de uma forma cada vez mais quente, cada vez mais acolhedora, cada vez mais próxima. Minutos antes de tocar a lava do velho vulcão, pensou no que de mais intenso havia experimentado até aquele dia. E quando, finalmente, seu corpo foi entregue às chamas, ela pôde, pela primeira vez naquela existência, experimentar na mente, no corpo, na alma e no coração, toda a realização que só uma coisa é capaz de trazer à qualquer criatura viva na face da Terra. Ao entregar a si própria em sacrifício, ela soube que o buraco em seu peito havia finalmente sido preenchido e isso era só o que importava. Ao abraçar o fogo, ela soube então que sentia, pela primeira vez, toda a plenitude do verdadeiro Amor.



sexta-feira, 7 de setembro de 2012

Belo e Maldito


Segundo Oscar Wilde "A felicidade de um homem casado depende das mulheres com as quais não se casou."... E eu não me casei com você... Não lamento... Pois não faria isso, você não é mulher que se casa... Sua liberdade incomoda por me mostrar o quanto estou preso a mim mesmo... E me seduz... Quando sorri está exatamente com vontade de sorrir e se chora não tem vergonha, não esconde os olhos vermelhos e nariz por escorrer. Como criança diverte-se em breves tardes de sol tomando vento na cara numa daquelas fugas com hora marcada... Sabe e se permite ser feliz enquanto eu confundo felicidade com estabilidade. Sua hora de viver é agora, e numa fração de segundos transforma o antes em magia e o depois num sonho... Belo esse sentimento e maldita ausência que ele sugere... Estou pensando no que me disse com suas metáforas desesperantes “Impossível seria dizer que está tudo errado, independente de não haver lugar para um na vida do outro, esse é o momento em que tudo se acerta... Separados somos belos e maldito é esse tal amor...” Adeus.

Pat.



Texto escrito sábado passado para o Sarau Solidões Coletivas In Bar - edição especial "Belos e malditos" -
Por  Patrícia Correa